Capítulo 6



12/09/2013

O que faz a gente ficar olhando a vida do outro? Toda vez que percebo que estou começando a olhar demais o perfil dos outros, fecho o Facebook. Me sinto mal. Penso que estou deixando de olhar para mim. Mas o mundo contemporâneo, o que é, senão um eterno olhar para fora? Por exemplo, a missa, antes, era um convite à introspecção. Agora, é um show em que o padre é uma estrela e os fiéis, os coadjuvantes. O demônio – ou o mal – hoje em dia está fora de nós. Assim como Jesus – o bem supremo - também está fora. Antes o discurso da igreja se calcava no perigo dos maus pensamentos (nesse sentido, o demônio estava dentro de nós). Agora, os padres só falam das tentações que estão no mundo. E eu me pergunto: entre Jesus e satanás, onde fica o indivíduo nessa história? É bom que as pessoas não fiquem encucadas se achando pecadoras porque pensaram isso ou aquilo, como era antes, mas se as pessoas não mudarem seus padrões de pensamento, vão continuar sofrendo e fazendo sofrer. Não dá para uma pessoa ter paz de espírito quando ela se coloca no centro de uma hipotética luta feroz entre o bem e o mal.

*

Tem um amigo. Quero dizer, um rapaz que conheci num grupo de luta da classe teatral – sou autora e produtora – que gosta de provocar tudo e todos. Por isso, sempre imagino sua voz rascante como a do Ítalo Rossi ou poderosa como a do Ian McKellen. Daí, fico pensando: e se ele tiver voz fina, ou língua presa? Se o grande provocador, pessoalmente, não inspirar temor, mas simpatia ou pena...

*

Que tanto eu checo e-mail, mensagem? Que tanto eu checo se lembraram de mim, se querem falar comigo? Tem gente que quer me comer, mas quem quer se conectar comigo de verdade? 
Procuro alguém que queira se conectar comigo de verdade.

Chego a escrever isso, mas não publico. Esse desejo fica guardado só para mim. É que nem bosta. Ninguém põe no perfil foto de bosta.

*

Convidam a gente para um evento. Quando a gente aceita, aparece um box convidando-nos a informar aos amigos por que vamos ao evento. Em primeiro lugar, é engraçado que tudo, hoje em dia, tenha virado “evento”. Em segundo, por que tudo tem que ser dito? Por que eu deveria fazer propaganda do evento para os outros? Por que eu deveria justificar a minha participação?

Por que hoje em dia a gente se distrai com tanta besteira? Ninguém se concentra mais, todo fluxo de pensamento é interrompido. Nada tem sequência.

O pensamento é uma linha pontilhada e há muito espaço entre os pontos. Entre os pontos, há o vazio. Por isso todos querem chegar logo ao próximo ponto: ninguém quer o vazio. Mas como ter outro pensamento sem passar pelo vazio, sem esvaziar-se?

Daí, a alternativa contemporânea é ficar só absorvendo os pensamentos alheios e recombinando-os. A propósito, no meu tempo, quem tocava música era músico. Hoje é DJ.



 

Nenhum comentário:

Postar um comentário