Capítulo 5


11/09/2013

Ah, hoje eu postei o vídeo de uma garotinha que tinha lábio leporino. Ela sentia vergonha e escondia o rosto atrás de uma bonequinha. Aí, fizeram a operação e ela fez uma cara tão linda quando se viu no espelho... o lábio costuradinho, direitinho. E um sorriso lindo. Uma amiga comentou que se emocionou muito e chorou à beça. Outra disse que o vídeo é comovente mesmo, mas que sentia pena da garotinha por saber que essa operação pode ser feita no bebê recém-nascido. Ela disse que sentiu pena, mas fiquei pensando se ela não quis dizer que sentiu revolta. A palavra exata, às vezes, é um artigo difícil. Aliás, eu não deveria ter usado a palavra “artigo” nesse caso. 
Preciso terminar de ler “Bartleby”. Preciso fazer o almoço. Vou cortar cebola e tomate para fazer um refogado e cozinhar o frango desfiado. Por que as pessoas nunca me pagam na data em que dizem que vão pagar? Meu primo escreveu um livro assim, de escrita automática, nos anos 70. Todo mundo achou o livro uma droga. O meu, será que também vão achar? Eu me lembro da barba do meu primo, do cheiro de cigarro que ele exalava, da voz mansa e do sorriso constante. As pessoas vão e deixam apenas vestígios. Aliás, elas vão para onde? Não importa? Ou importa? Como alguém pode viver o agora se está preocupado com o lugar para onde vai depois que a vida se esvai do corpo? E se o lugar – início, meio e fim – da vida for o corpo? Mas tem aquele papo todo de energia... Ah, foda-se. O importante é ser feliz. Ou contente. Ou, sei lá, ser digno. Bem atual, essa expressão. Talvez esteja na moda exatamente porque o mundo anda tão carente de dignidade...

Escrevo esse livro num caderno de capa dura, sentada à frente do computador. É como o médico e o monstro. Há uma diferença brutal entre a mulher conectada e a que escreve garranchos num caderno. A mulher que escreve garranchos vai se descobrindo. A conectada, vai se escondendo num mundo de informação, cheio de links para lugar nenhum. A cada link visitado, ela se distancia de si mesma. Já cada garrancho que ela escreve, é um encontro consigo.
 

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ARTUR ZMIJEWSKI
“Eye for na Eye”, um vídeo de 11 minutos e 22 segundos que começa com um homem de uma perna só subindo uma escada pelado, o pau balançando alegremente a cada pulo. Ele chega num quarto vazio onde se vê um homem deitado num colchão. O homem – que tem as duas pernas - está pelado também. O homem de uma perna só deita à frente do homem de duas pernas. Ficam na posição de conchinha. Eu penso que vai rolar sexo, mas o homem de duas pernas encaixa sua perna no lugar da que faltava no homem de uma perna só. E então, levanta com ele e anda... fica aquele ser de três pernas andando. O ser de três pernas faz o caminho de volta; desce a escada e desaparece.
Há outros vídeos, incontáveis, na minha linha do tempo. Não tenho mais tempo de ver. Preciso almoçar. Penso que a internet é um espaço sem tempo definido. Preciso almoçar, tomar banho, comprar um desentupidor para a merda do vaso que mais uma vez ficou entupido com merda. Antes vou tomar banho.


Esse vídeo, do homem sem perna que se funde com outro e vira um ser de três pernas, faz parte de um projeto chamado “Eye for an Eye” ou “Olho por Olho”, que consiste numa série de vídeos e fotografias em que pessoas amputadas têm um conforto temporário quando pessoas saudáveis emprestam a elas pedaços de seus próprios corpos. Se um homem não tem uma perna, um outro empresta uma perna a ele; se a mulher não tem um braço, alguém empresta a ela um braço. Mas para que a coisa funcione, é preciso haver um contato físico total, um abraço de urso. Só assim ocorre a fusão. E isso pode ser difícil porque é preciso que a pele da pessoa “normal” cole na pele da pessoa amputada justamente a partir da cicatriz. A interação é para suprir o que foi perdido em consequência daquele corte que se fechou.  
Dizem que, quando Deus fecha uma porta, em algum lugar abre uma janela. Você acredita? Eu duvido muitas vezes, mas a gente precisa acreditar nisso. Esperança é uma questão de sobrevivência. E lá vou eu, finalmente, providenciar o meu almoço.
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Mais um desaparecido com Alzheimer. É o pai de alguém que não conheço. Ela pede que orem e compartilhem. Eu divulgo, embora deixe oculto na minha timeline (linha do tempo). É para não ficar com peso na consciência. Porque não consigo acreditar que o Facebook possa ser útil nesse caso.

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Uma foto de uma xícara cheia de café e os dizeres:
Uma dose de café + duas de fé, por favor!
Eu curti. É exatamente disso que preciso. Sou viciada em café, mas nem sempre me sobra fé.
Vou rolando a página.
Professores de luto pela educação
Coitados, luto eterno... Um índio chora na beira da estrada. Uma peça vai estrear – elenco obscuro, num lugar que ninguém conhece, com atores muito sorridentes. Pois é, se tem gente com fé para dar e vender, é o povo do teatro. Nada os abala: falta de público, falta de dinheiro. Eles se sentem muito importantes com suas “pesquisas dramáticas”. Mas é bom que exista gente assim no mundo. Se toda a humanidade fosse composta de cínicos, a raça humana já teria sido extinta há muito tempo. O cínico não crê e, porque não crê, não ousa. E porque não ousa, apodrece e morre.
A foto de mulher apontando uma arma na cabeça de uma criança de dois anos causa indignação no Facebook. A arma parece de brinquedo, mas que doida... que “sem noção” (SQN), como se diz. Eu me lembro do caso da garotinha jogada pela janela (Caso Nardoni), me lembro da Suzane Richtoffen. E me vem à cabeça a frase:
Vivemos num mundo doente.
Ok, o mundo está nessa merda. Como se salvar? Há salvação possível? Salvação real? Não falo de alienação, mas de mudança para melhor verdadeira. Mudança de fato.














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