Capítulo 2


3/09/2013

        O álcool facilita as coisas. Quase todos os romances da TV começam depois de um ou mais drinques. Quase todos os romances da vida real começam engrenados pelo álcool. Eu não quero ter que tomar um porre para achar alguém. Não quero achar que alguém é perfeito só depois que não distinguir mais os traços de seu rosto.
        Querido stress, quero terminar minha relação com você.
        Favelados lutam por seus direitos.
        Preencha seu vazio com histórias.    

*
Antes de pensar numa história, lembro que preciso de uma câmera. Acho que preciso também de um relógio. E de uma calça jeans nova. E de um namorado.
Não sei se quero contar histórias fragmentadas. Porque, hoje em dia, toda narrativa é fragmentada. Ninguém se concentra verdadeiramente numa coisa, ninguém mergulha. Há sempre a sombra do outro, a conexão com o mundo... via celular, tablet, PC... como mergulhar numa história, se passo o tempo todo me alienando de mim mesma?
Como posso realizar o sonho de ser escritora? Quem eu vejo vivendo do que escreve é porque foi por esse caminho do POP, esse caminho de fragmentação, esse caminho que não leva a nada. É uma linha pontilhada com espaços muito longos entre os pontos. Nesses espaços cabe um monte de coisa. Cabe um monte de coisa justamente porque não há nada.

*

Para cada momento que estiver passando, a palavra de Deus tem a resposta. Triste? Salmo 27:14. Tentado? Tiago 1:12–15. Arrependido? Lucas 15:10. Com medo? Isaias 41:10–15. Perdido? Dt. 30:15–20. Magoado? Mateus 18:21–22. Vitorioso? Êxodo 15:1–5. Agradecido? Lucas 1:46–55.


João Henrique (esse é um codinome), a todo momento, curte alguma coisa. Ele curtiu uma firma de engenharia, uma empresa de promoção de eventos, uma agência de viagens, uma página de cantores de gospel, uma página chamada “Orgulho Católico”. Fico pensando que daqui a pouco ele vai curtir uma página de umbanda e outra de budismo. Dia desses ele curtiu “Salvem os pandas”.
O que tanto as pessoas curtem? Será que elas acham que tem tanta coisa assim pra se curtir? Curtir não quer dizer gostar? Como as pessoas podem gostar de coisas tão conflitantes? Será que elas gostam mesmo? Será que elas mentem? Ou será que elas não pensam? Essa hipótese me parece a mais provável. Ninguém pensa. Estamos na era dos autômatos. Aliás, aposto que muito poucos conhecem a palavra “autômato”. Segundo o dicionário, ser autômato é:


Agir de forma automática, mecânica.


Autômatos também são bonecos que se construíam antigamente para escrever e desenhar. Eles funcionavam utilizando a força dos motores de corda. Os autômatos foram os avós dos robôs. Naquela época, há duzentos anos, nem se pensava em máquinas malignas como um Hal, o computador de 2001. Antes, parece, não havia esse espaço que há hoje para a maldade. Queria ter nascido nesse tempo. A vida de uma mulher era uma droga, mas eu podia ter a sorte de nascer homem... e me casar com uma bruxa.  Pelo menos, elas não eram caretas como todo o resto, o que garantiria uma vida divertida. Se bem que, nessa época, já não havia mais bruxas. Foram todas queimadas bem antes. As que não foram, atrofiaram-se, de tanto reprimir seus poderes.
Quando eu tinha 19 anos, por aí, li “O Diário de um Mago”.   Eu me lembro disso de repente. Logo depois, li “O Alquimista”, mas sempre preferi o mago. Passei anos sonhando com o caminho de Santiago.

Cursos online gratuitos.

O link não funciona.
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O Facebook é uma sucessão de imagens vazias. Nada se acha aqui.  Aliás, tudo se perde na rede.

Tudo Matrix. Tudo Matrix.

Os orientais dizem que a meditação serve para acalmar a mente. Eles gostam de dizer que a mente é como um macaco louco. Pois eu digo que a mente, hoje em dia, é como um escorpião louco. Um escorpião enlouquecido de dor, com vontade de provar tudo ao mesmo tempo. Vontade de se encontrar, vontade de se perder. Vontade de reter, vontade de descartar. Antes de dar a derradeira ferroada... e ficar em paz.

Porque é impossível esvaziar a mente hoje. O nada não existe numa era em que se pode ser achado a qualquer hora, em qualquer canto. Como falar do nada se não se pode ficar sozinho um instante que seja? E como explicar que possamos sentir tanta solidão apesar de estarmos conectados o tempo todo? Conexão não é ligação? Estamos ligados a que, então? Estar conectado talvez não seja, enfim, estar ligado, como querem nos fazer acreditar. Estar conectado é simplesmente ter a possibilidade de comunicação. Mas o que tanto temos para comunicar ao outro? Na era da instantaneidade, o que tornar comum, o que compartilhar, que o outro já não saiba? Só as intimidades... mas, uma vez que as intimidades vão ficando cada vez mais parecidas, num mundo em que todos se comunicam o tempo todo...




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